Desafio das Três Américas – 1993

De San Francisco Califórnia – EUA até Fortaleza-ce Brazil

Um anúncio de jornal. Foi assim que conheci o amigo Márcio Oliveira. A amizade veio primeiro e, depois, a vontade de realizar um sonho em comum: realizar uma longa viagem de moto. A partir daí começou o “Desafio das Três Américas”, uma viagem entre São Francisco, na Califórnia, até Fortaleza no Ceará. A viagem durou 51 dias e teve início no dia 28 de fevereiro de 1993 às 05:30 da manhã em frente ao café Puccini. A ponte Golden Gate dava Adeus no início da US -5.

No dia 02 de março cruzamos a fronteira com o México. O choque de contrastes entre a riqueza americana e a pobreza mexicana foi compensado pela beleza de Tijuana e Mexicalli. Atravessamos o México em 10 dias. Na viagem, registramos grandes belezas, como as praias de Guaymas e Mazatlan, as planícies de Sonora, as ruínas de quase 2.500 anos de Mont Alban e a famosa cidade de Guadalajara. No México, o nosso grande desafio foi a natureza, enfrentar o frio, o calor, a tempestade de granizo e, na fronteira com a Guatemala, um terremoto.

Em 12 de março, cruzamos a linha, como é chamada a fronteira com o México e a Guatemala, cidade que fica no alto de uma montanha. O clima na Guatemala era tenso, devido à presença de guerrilheiros por toda a parte. Era comum ficarmos sobre a mira de fuzis da polícia e do exército para mostrar os documentos.

El Salvador era o próximo destino. Rodamos 400 quilômetros até lá. O país ainda guardava as marcas da guerra civil por todos os lados, principalmente no rosto das pessoas que fugiam quando pedíamos informações. Decidimos seguir para San Miguel já próximo à fronteira com Honduras. Cruzamos rapidamente este país e seguimos para Nicarágua onde, no caminho, conhecemos o lago Managuá a 450 km de altitude. Chegamos a capital e nos deparamos com um povo recém-saído da guerra civil, alegre e hospitaleiro.

Nossa próxima parada foi a Costa Rica, um oásis de paz na América Central. Dormimos em San José, de onde partimos com destino a cidade de Neyle. Foi um dia cansativo e, quando chegamos a um trecho conhecido por “Cerro de la Muerte”, a neblina reduzia a visibilidade para a, apenas, 20 metros, nos obrigando a andar bem devagar. No panamá, sofremos um pouco para chegarmos a Capital, Cidade do Panamá, bem na hora do “rush” e o hotel onde ficaríamos era do outro lado da cidade. Aproveitamos o fim de tarde para visitarmos o famoso “Canal” e tivemos a sorte de vê-lo em pleno funcionamento.

Embarcamos de avião para Caracas, Capital da Venezuela. Lá vivemos um dos momentos mais delicados da viagem, pois enfrentamos a burocracia venezuelana: nossas motos não poderiam ser liberadas sem os trâmites legais de uma importação temporária de veículos e, é claro, que tudo poderia ser resolvido na hora, pagando dois mil dólares cada ao fiscal aduaneiro. As motos foram apreendidas e foram seis dias para liberá-las.

No caminho, outro incidente. Fomos parados por um patrulheiro da polícia venezuelana, alegando que um decreto presencial proibia o tráfego de motos na estrada que nos levaria de Caracas até a fronteira com o Brasil. Sem fazer comentários, seguimos em frente. Santa Helena era a nossa meta, pois era a cidade limítrofe com o Brasil. Passamos pelos Parques Nacionais de Porto Audaz, Caraiamas e Gran Sabana. A esta altura, já vimos ao longe o Pico Roraima e uma certa ansiedade foi tomando conta de nós.

Nesse trecho, tivemos o único acidente da viagem. Bati em uma pedra e cai danificando bastante a moto, mas o pior foi o joelho que bateu em pequenas pedras afiadas. Seguimos para Boa Vista e de lá para o hospital. O quadro clínico foi assustador, fissura de rótula e dois dias hospitalizado. Só nos restou uma opção para chegarmos até Manaus, colocar as motos em um caminhão. Iniciamos um dos trechos mais duros de toda a viagem e foram necessários dois dias para percorrer 757 km. Finalmente, dormimos no baú de caminhões e chegamos até Manaus.

De Manaus, seguimos de avião para o Maranhão na madrugada de 04 de abril. Assim que chegamos, desencaixotamos as motos e partimos para o melhor lugar que um aventureiro pode estar: a estrada. Neste mesmo dia, chegamos em Teresina, Capital do Piauí, um trecho tranquilo e sem surpresas.

No último dia de viagem, os seiscentos e sessenta quilômetros que nos separavam de casa, foram os mais rápidos, mas também um dos mais curtidos pela ansiedade de ver a família, e foi com cerveja que comemoramos e nossa chegada.

Foram 51 dias com arranhões que nos deixaram lembranças que jamais esqueceremos.


Informações Técnicas

Gerais

  • Ano de realização: 1993
  • Pilotos: Bozoka e Márcio Oliveira
  • Roteiro: USA, México, Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Venezuela e Brasil.
  • Duração: 36 dias

Detalhes da moto

  • Motocicletas: O2 Hondas XLE 600cc Transalp Ano 1989
  • Fabricação: Honda Japão
  • Compradas em: San Francisco-Califórnia- USA
  • Motor:  V Twin
  • Cilindradas: 583cc
  • Peso: 205 kg
  • Velocidade Máxima: 160 km/h


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